O culto ao pobre exótico
Será que tantas horas de trabalho tinham deixado Renan maluco? Terá sido a cervejinha no boteco no dia anterior? O virado de feijão que ele tentou fazer igual ao que a mãe fazia na Bahia? Não devia ter exagerado naquela pimenta, pensou. Mas ele nunca viu pimenta dar alucinação, vertigem, e nem fazer nascer maracujá. Sempre achou que quem delirava demais era aquele povinho que ia no restaurante onde ele era o cozinheiro: festas regadas a muita bebida e muita coisa estranha, que deixava aquele povo novinho todo caído no chão, passando mal... Não sabia como agüentavam chegar em casa. Eram festas com música boa, mas será que eles gostavam por vontade própria ou porque botaram no som, apenas? Outro dia, vira passar pelas mesas do restaurante uma turma bonita, mas que se enfeiava que dava dó. Tinha até um que era cantor famoso, negro, alto, mas com os cabelos tão desgrenhados quanto os dos doidinhos que corriam e gritavam na poeira do sertão que ele deixou há algum tempo. Aliás, outra coisa que nunca entendeu era como aquela gente toda gastava dinheiro. O restaurante em que ele trabalhava era muito caro, ele, por vontade própria, nunca comeria lá. Comia apenas porque trabalhava e também cozinhava. Ah, mas por vontade própria, ele quer mesmo é juntar dinheiro e voltar pro poeirão de onde veio, que agora tem água encanada, tem luz e tem festa em todo final de semana. E tem os maracujás do quintal da mãe. Mas maracujá tinha ali também, no banheiro, enquanto ele lavava a mão. Como será que eles nasceram ali? Terá sido por causa das vezes em que chorou escondido, de saudades de todo mundo? Da mãe, dos irmãos, do pai e da menina que ficou por lá? São Paulo era terra de meninas bonitas, sempre diziam pra ele. E era mesmo. Mas nenhuma pertencia ao seu mundo. E nem queria saber de suas histórias. Por mais que usassem saias de chita e sandálias rasteiras. Por enquanto, a lembrança mais próxima de sua casa eram os maracujás do banheiro.

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